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Trabalho remoto (parte 1)

A evolução tecnológica tem impactos em todos os aspetos da sociedade. Em particular, novas tecnologias criam novos trabalhos e novas formas de trabalhar. Hoje, um conjunto muito significativo de empregos são baseados no uso de computador e de internet. O trabalho é feito com o computador, os dados são guardados, enviados, acedidos, editados através da internet e um grande conjunto de serviços de comunicação, armazenamento, computação na nuvem, etc, estão disponíveis.

As equipas usam email, chatters, videoconferência para comunicarem; ferramentas de edição colaborativa; sistemas de versionamento de código; redes privadas virtuais para poder estar na rede interna independentemente de onde se esteja fisicamente; partilha de ecrã e remote desktop; sistemas para gestão e distribuição de tarefas. Tudo isto e muito mais. Muitos trabalhos dependem totalmente e unicamente destas tecnologias.

E apesar de toda a oferta de dispositivos, serviços e tecnologias que providenciam segurança, eficiência, eficácia, qualidade e mobilidade, o escritório é ainda o local típico de trabalho para os profissionais cujo trabalho é feito inteiramente com recurso a essas mesmas tecnologias. Ou seja, e por outras palavras, hoje celebramos a era da mobilidade e gozamos do privilégio de podermos fazer tudo o que é possível fazer com um computador em qualquer sítio; no entanto, continuamos a ir para o escritório todos os dias. Enfrentamos o trânsito, o stress, o acordar cedo, as correrias para chegarmos ao escritório, para passarmos o dia a trabalhar com o computador, a internet e todas as suas versatilidades.

Isto é como pegar no carro, conduzir 20km e enfrentar uma fila de trânsito até ao ginásio para fazer passadeira quando está um belo dia de sol e temos um parque muito bonito ao lado de casa.

Hoje, o trabalho remoto é possível para muitas profissões e tem imensas vantagens. E as vantagens são tanto para a entidade empregadora como para o trabalhador como também para quem não trabalha remotamente!

Ao trabalhar a partir de casa o colaborador tem um ganho imediato: tempo. Tempo que não perde a conduzir preso no trânsito e que pode ser usado para outras atividades como descansar, estar com a família e amigos, ter um hobby, cozinhar, fazer exercício. Este é um ganho muito significativo. Tão mais significativo quanto maior a distância entre casa e o trabalho e quanto maiores os problemas de trânsito existentes.

Numa cidade de congestionamentos constantes e de horas de ponta tortuosas para quem enfrenta o trânsito diariamente, é normal gastar-se 2 ou mais horas em trânsito… em cada sentido. Isto significa 4 horas diárias que são, tipicamente, desperdiçadas. 4 horas diárias que se traduzem em menos tempo com a família, pouco tempo para descansar e para comer bem e descansado, ausência de hobbies, ausência de atividade. Em resumo, tem impacto direto na qualidade de vida, na sua satisfação, no seu nível de stress. E estas são questões que devem preocupar o empregador.

Um colaborador insatisfeito, stressado, sem saúde, cansado é um colaborador que não produz. Mesmo considerando um caso menos extremo de 1 hora de viagens de cada sentido, estamos a falar de 2 horas diárias, ou 10 horas semanais ou 44 horas mensais que poderiam ser aplicadas em algo mais útil e que trouxesse mais satisfação.

Hoje fala-se muito de como as pessoas dormem pouco e mal e como isso afeta a saúde. Não ter de gastar 1 hora todas as manhãs para ir para o trabalho pode ser a diferença entre dormir 6 horas ou dormir 7 horas por noite e isto é uma diferença significativa.

Outra vantagem óbvia é a poupança. Para o trabalhador, não ter de ir todos os dias para o trabalho dispensa a necessidade de gastar combustível no carro, portagens, estacionamento ou de comprar o bilhete mensal para os transportes públicos. Pode até tornar desnecessário ter-se carro e, com ele, outras despesas como seguro e manutenção. Considerando uma pessoa que se desloca em transportes públicos na área da Grande Lisboa e que tem um passe mensal no valor 67 euros (valor arredondado do passe L123), no final do ano, o dinheiro poupado é de 804 euros, dinheiro que pode ser usado para, por exemplo, umas férias para relaxar.

Também para o empregador a poupança surgirá. Se um empregado está em casa a trabalhar, não precisa de um posto de trabalho. Assim, corta-se no custo de mobiliário, pode-se ter um escritório com área mais reduzida, diminuindo a renda. Pode-se também considerar a hipótese de não ter o escritório num local central da cidade e, como tal, mais caro. Para quê pagar para estar num sítio bem localizado, com muitos acessos, se os colaboradores estão em casa?

Rui Pinheiro (Together) a trabalhar a partir de casa.
Rui Pinheiro (Estamos Juntos) a trabalhar a partir de casa.

A produtividade é um ponto que, tipicamente, é visto como o calcanhar de Aquiles desta abordagem de trabalho. O receio de os trabalhadores terem muitas distrações em casa ou de haver uma grande tentação de preguiçar por não estar um gestor presencialmente a controlar o trabalho podem ser entraves a um empresário para introduzir o trabalho remoto na sua empresa. Mas, tal como acontece no trabalho no escritório, têm de existir metodologias e ferramentas para atribuição de tarefas e para controlo. Com a metodologia correta é fácil perceber se o colaborador está a fazer o seu trabalho corretamente.

Mas isto não é uma novidade introduzida com o trabalho remoto. Todo o trabalho deve ter alguma forma de medir desempenho e produção. Afinal, um empregado também pode ociar no escritório e usar cada oportunidade que tenha para navegar no facebook.

Ainda sobre este ponto, e recorrendo ao que foi escrito anteriormente, é importante considerar que alguns fatores essenciais para a produtividade é o bem-estar, a motivação, a ausência de stress, o repouso adequado. E um empregado que enfrenta 1 hora de deslocações de manhã, mais 1 ao fim da tarde, que dorme pouco, que não come bem, que não tem tempo para fazer exercício nem para passar tempo com a família, chegará ao escritório cada manhã mais cansado e desmotivado que um empregado feliz a trabalhar em casa.

(Continua na segunda parte…)

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